as fotografias antigas enchem-me os olhos de lágrimas que eu já não posso dar a ninguém.
já não conheço aquelas caras. há um silêncio muito cruel aqui. mesmo assim, deixo-me no pijama vermelho e repito mentalmente que nunca mais corto o cabelo curto. nunca mais.
mas é muito tempo.
havia uma rapariga que me dava vontade de chorar. acho que já não existe. procura-a no espelho e só encontro a minha estupida cara a estranhar o que está deste lado.
hoje tenho que estudar e a vontade de ficar a fumar o resto dos cigarros sem fazer nenhum parece-me muito mais atraente do que ir ver o que o Bessa nos deixou para ler.
tenho vontade de sair daqui, também. de não tomar conta de mim.
o dia está tão azul e claro que me esqueci de perguntar-lhe quando é que volta.
hoje é domingo e os meus pais estão numa praia qualquer e eu tenho a casa num caos.
tenho muita vontade de sair daqui e de falar com velhos amigos.
sussuram-me ao ouvido que não nos devemos agarrar aos momentos passados.
isto hoje é doentio.
tenho que me esquecer de que o meu cabelo está curto.
vejo que o silêncio se torna insuportavel à medida que o tempo que nos deram a engolir passa a conta-gotas.
procuro o club kid e aquela que pintava o cabelo, a rapariga das asas verdes e o sorriso triste e matreiro do rapaz-gato, da rapariga-liberdade e do rapaz que se esquece do caminho de casa comigo, do meu irmão-que-não-é-realmente e do que me sabe dizer o que se passa (mas que passa o tempo sem saber o que lhe acontece dentro da caixa-forte).
tenho saudades do meu amigo do meio.
a menina-palhaço está quase a chegar e isso reconfortame
de procurar no meio das árvores conversas que nos iluminam em parte e nunca nos deixam na mesma. de atirar mais uma garrafa ao mar com textos bêbedos. de oferecer flores. de pintar as unhas. e de cantar em ruas mais escuras que iluminadas.
preciso da inebriação divina e pá, isso é terrivelmente deprimente de se pensar, ou só terrivel.
é que já não sei há quanto tempo é que não me perco no ar.
tenho que esquecer isto tudo rapidamente e mover-me.
tenho que esquecer isto tudo.
e mover-me.
foda-se tenho saudades nostálgicas. que filhice-de-putice.
hey, quanto tempo aguentas dentro da tua cabeça?
pego em tinta e cartão, em lápis e desenho paisagens com um pénis gigante à mistura.
pego na minha máquina mas já não sei para que lado hei-de virar a objectiva.
encontro a super 8 do meu pai e não sei que raio hei-de fazer com isto.
o futuro cai-me nas mãos e eu só quero bater nas pessoas.
ou em mim, que no fundo é a mesma coisa.
esta casa cheira a banho e tabaco. o meu irmão toca guitarra e ouço os simpsons lá em baixo.
eu não sei porque estou aqui.
verifico as notas do dia anterior.
aperto a mão aos meus fantasmas e esqueço os cigarros no parapeito da janela.
vou viver um bocadinho e afogar a apatia dos domingos e rir-me dela a sufocar dentro dum saco de plástico.
no fundo, prefiro estar em movimento e ir chorando a não fazer um caralho.